Quinta-feira, oito e meia da manhã, sala dos professores. A coordenadora chega com uma planilha impressa e avisa que até segunda todo mundo precisa entregar o planejamento do terceiro bimestre com as habilidades da Base declaradas por aula. Você abre seu diário do 2º ano, olha a coluna de habilidade e encontra o que sempre esteve ali: EF89EF04, copiado do planejamento do 9º ano do ano passado, ou pior, a célula vazia.
Aí você abre o documento da Base para procurar a habilidade certa do Ensino Médio e descobre uma coisa que ninguém avisou: não existe código de Educação Física no Ensino Médio. Você procura por EM13EF e não encontra nada. E fica com a sensação incômoda de que ou o documento esqueceu da sua disciplina, ou você é o único professor da escola que não entendeu como isso funciona.
Não é nem uma coisa nem outra. A Educação Física está na Base do Ensino Médio, com habilidades definidas, texto próprio e objetos de conhecimento. Só que ela mudou de endereço. E é esse endereço que este artigo vai te dar, junto com o modo de declarar isso no plano e no diário sem inventar código que não existe.
Onde a Educação Física está na BNCC do Ensino Médio
A resposta direta, para você já resolver o diário de hoje:
Na BNCC do Ensino Médio, a Educação Física não tem código próprio como no Fundamental. Ela integra a área de Linguagens e suas Tecnologias, cujas habilidades usam o prefixo EM13LGG. As mais ligadas às práticas corporais são EM13LGG501, EM13LGG502 e EM13LGG503, da competência específica 5. É esse código que vai no plano e no diário.
Quem vem do Fundamental estranha, e com razão. Lá, cada componente tem sua sigla dentro do código: EF67EF16 é sexto e sétimo ano, Educação Física, habilidade dezesseis. O componente aparece no próprio código. No Ensino Médio a lógica muda: a Base não organiza a etapa por componente, organiza por área de conhecimento. Por isso o código passa a ser EM13LGG, onde EM é a etapa, 13 indica que a habilidade vale para os três anos e LGG é a área de Linguagens e suas Tecnologias, que reúne Língua Portuguesa, Arte, Língua Inglesa e Educação Física.
Traduzindo o código, para você não decorar: no EM13LGG501, o primeiro algarismo depois de LGG (o 5) indica a competência específica da área, e os dois últimos (01) indicam a habilidade dentro daquela competência. Sabendo ler isso, você para de depender de tabela pronta e passa a localizar qualquer habilidade da área no documento.
As habilidades de Linguagens que a prática corporal atende
O núcleo mais direto está na competência específica 5 da área. São três habilidades que qualquer aula de quadra bem planejada atende sem forçar nada:
- EM13LGG501: selecionar e utilizar movimentos corporais de forma consciente e intencional para interagir socialmente em práticas corporais, estabelecendo relações construtivas, empáticas, éticas e de respeito às diferenças.
- EM13LGG502: analisar criticamente preconceitos, estereótipos e relações de poder presentes nas práticas corporais, adotando posicionamento contrário a qualquer manifestação de injustiça e desrespeito a direitos humanos.
- EM13LGG503: vivenciar práticas corporais e significá-las no projeto de vida, como forma de autoconhecimento, autocuidado com o corpo e com a saúde, socialização e entretenimento.
Repare no que essas três frases têm em comum e no que elas não dizem. Nenhuma fala em executar o fundamento correto, em melhorar a performance ou em aprender a modalidade. Elas falam em usar o movimento com intenção, analisar criticamente e significar a prática no projeto de vida. Essa é a virada de intenção da etapa, e é o ponto que a maioria dos planejamentos de Ensino Médio ignora.
Além da competência 5, outras habilidades da área encostam na Educação Física com naturalidade sempre que a aula produz alguma coisa além do jogo. Quando a turma pesquisa a história de uma prática corporal e apresenta o resultado, você está em competência 1 (compreender o funcionamento das linguagens e seus efeitos de sentido). Quando produz um vídeo, um podcast ou uma campanha sobre corpo e saúde, está em competência 3 (participar de processos de produção em diferentes linguagens). Quando aprecia e discute uma manifestação da cultura corporal, dança, capoeira, esporte de rua, está em competência 6 (apreciar esteticamente manifestações artísticas e culturais).
O que muda na aula: do fazer para o analisar
Existe uma diferença de intenção entre as etapas que quase nunca é dita com todas as letras. No Fundamental, o aluno está aprendendo a praticar: experimentar, fruir, recriar, identificar. No Ensino Médio, o verbo dominante das habilidades muda para analisar, problematizar, posicionar-se, significar. O aluno continua praticando, obviamente, mas a prática deixa de ser o ponto de chegada e vira material de análise.
Isso tem consequência prática imediata. A aula de vôlei do 1º ano não pode ser a mesma aula de vôlei do 9º ano com alunos mais altos. Se for, você está entregando Fundamental com nome de Médio, e é por isso que a turma de Ensino Médio some da quadra: o aluno de 16 anos percebe rápido quando está repetindo o que já fez três anos atrás.
Um exemplo concreto da mesma prática nas duas etapas
Pegue futsal. No Fundamental II, a aula gira em torno de experimentar o jogo, ajustar regras para incluir todo mundo e aprender os fundamentos. No Ensino Médio, a mesma quadra sustenta outra pergunta: por que a modalidade feminina tem menos patrocínio, menos transmissão e menos público? Os alunos jogam, sim, e depois cruzam isso com dados, com o que veem na televisão e com o que acontece no recreio da própria escola, onde a quadra central quase sempre é ocupada pelo mesmo grupo. Isso é EM13LGG502 sendo cumprida de verdade, não de enfeite no papel.
Outro exemplo, agora com práticas corporais de aventura, que é um objeto de conhecimento previsto para a etapa: uma sequência de corrida de orientação no pátio da escola, com mapa feito pelos próprios alunos, atende EM13LGG501 na execução e abre discussão sobre acesso a espaços públicos de lazer na cidade, que é conteúdo de área e não enfeite. Se você quiser revisar como as unidades temáticas se organizam antes disso, vale reler o mapeamento de unidades temáticas da Educação Física na BNCC do Fundamental ao Médio.
Material pedagógico
Planos de aula de Ensino Médio com a habilidade de Linguagens já declarada
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Ver materiais completos →Como declarar no plano e no diário sem inventar código
Aqui está o procedimento que resolve o problema do registro. Três colunas, sempre na mesma ordem:
- Área e componente: Linguagens e suas Tecnologias / Educação Física. Escrever os dois. A área é o que a Base organiza, o componente é o que você leciona.
- Habilidade: o código EM13LGG completo, com o texto da habilidade transcrito. Nunca só o número, porque quem lê o diário depois (coordenação, supervisão, auditoria da rede) precisa entender o que foi trabalhado.
- Objeto de conhecimento: a prática corporal concreta da aula, por exemplo ginástica de condicionamento físico, dança urbana, lutas ou práticas corporais de aventura urbana.
Um registro correto fica assim: Linguagens e suas Tecnologias / Educação Física. EM13LGG502: analisar criticamente preconceitos, estereótipos e relações de poder presentes nas práticas corporais. Objeto de conhecimento: futsal, divisão de gênero na ocupação dos espaços esportivos. Isso passa em qualquer supervisão, porque o código existe, o texto confere com o documento e o objeto está declarado.
Três erros de registro que aparecem toda semana
- Usar código de Fundamental no Ensino Médio. EF89EF ou EF67EF em turma de 1º ano é o erro mais comum, e é o primeiro que a supervisão localiza, porque o código diz explicitamente que é Ensino Fundamental.
- Inventar EM13EF. Esse prefixo não existe na Base. Se aparecer no seu documento curricular estadual, provavelmente é numeração própria da rede, e nesse caso vale registrar os dois: o código do estado e o EM13LGG correspondente.
- Deixar a coluna vazia com a justificativa de que a Base não contempla a disciplina. Contempla. E a célula vazia é exatamente o argumento que uma gestão desavisada usa depois para questionar a carga horária do componente.
Itinerário formativo, parte diversificada e o documento do seu estado
A BNCC define a formação geral básica, que é obrigatória e igual para o país inteiro. Ao lado dela existem os itinerários formativos, que cada rede organiza, e a parte diversificada do currículo, definida pelo documento curricular do seu estado. Isso significa que o seu planejamento responde a dois documentos, não a um: a Base nacional e o currículo estadual, que quase sempre detalha objetos de conhecimento ano a ano e às vezes cria numeração própria.
Regra prática: quando os dois documentos divergirem na forma de nomear, a Base manda no código e o currículo do estado manda na distribuição por ano e bimestre. Registrar os dois protege você em qualquer conferência.
Vale ainda uma atualização recente que muda o chão da conversa. A Lei nº 14.945, de 31 de julho de 2024, reestruturou o Ensino Médio e devolveu a formação geral básica a 2.400 horas, com efeitos a partir de 2025. Na prática, isso recompôs espaço para componentes que haviam sido comprimidos pela reforma de 2017, entre eles a Educação Física. Quando a discussão de grade voltar na sua escola, esse é o dado a levar, junto com o que já tratamos sobre a obrigatoriedade da Educação Física como componente curricular.
Como defender a carga horária da disciplina no Ensino Médio
O Ensino Médio é a etapa em que a Educação Física é a primeira candidata a virar horário de reforço de redação ou aula extra de matemática antes do vestibular. A conversa costuma acontecer no corredor, informalmente, e o professor perde por não ter argumento pronto. Três que funcionam:
- Argumento legal: a Educação Física é componente curricular obrigatório da Educação Básica pelo artigo 26, parágrafo 3º, da LDB. Facultativa é a frequência do aluno em situações específicas previstas em lei, não a oferta pela escola.
- Argumento curricular: as habilidades EM13LGG501, 502 e 503 são da formação geral básica, obrigatórias, e não são atendidas por nenhum outro componente da área. Se a aula não acontece, a rede fica com lacuna documentada no próprio currículo.
- Argumento de projeto de vida: a EM13LGG503 conecta prática corporal a projeto de vida, tema que quase toda rede adotou como eixo do Ensino Médio. É a única aula da grade que trata autocuidado e saúde na prática, não na teoria.
Um dado que costuma virar a mesa: o aluno de Ensino Médio é justamente quem está em maior risco de abandonar a prática de atividade física, e a aula é para muitos a última experiência orientada de movimento antes da vida adulta. Sobre isso, os dados de atividade física e desempenho escolar ajudam a sustentar a conversa com números em vez de opinião.
Perguntas frequentes
Existe código EM13EF na BNCC?
Não. O prefixo de habilidade da Educação Física no Ensino Médio é EM13LGG, da área de Linguagens e suas Tecnologias. Se você encontrar EM13EF em algum material, provavelmente é numeração criada por uma rede ou por uma editora, não é código da Base.
A Educação Física continua obrigatória no Ensino Médio?
Sim. Ela é componente curricular obrigatório da Educação Básica pela LDB e integra a formação geral básica no Ensino Médio. A Lei nº 14.945/2024 reforçou esse espaço ao devolver a formação geral básica a 2.400 horas.
Posso usar as unidades temáticas do Fundamental no Ensino Médio?
As unidades temáticas (esportes, ginásticas, danças, lutas, práticas corporais de aventura, brincadeiras e jogos) continuam sendo referência de conteúdo, e a Base do Ensino Médio menciona explicitamente objetos como ginásticas, danças, lutas e práticas corporais de aventura. O que muda é o tratamento: no Médio, a prática vem acompanhada de análise crítica e de significação pessoal, não só de vivência.
E se o currículo do meu estado usar outra numeração?
Registre as duas: o código estadual e o EM13LGG correspondente. O currículo estadual detalha a distribuição por ano e bimestre, e a Base sustenta a habilidade nacionalmente. Com os dois no papel, nenhuma conferência derruba o seu registro.
Onde consultar o texto oficial?
No portal da Base Nacional Comum Curricular, do MEC. Vale ver, especificamente, o caderno de práticas Vivendo a cultura corporal de movimento no Ensino Médio, publicado pelo próprio MEC, que mostra como a área trata as práticas corporais nessa etapa.
Educação Física Além da Bola
Pare de improvisar o registro do Ensino Médio na véspera do conselho
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Conhecer os materiais →Sobre o autor: Caleb Paiva de Morais é professor de Educação Física com licenciatura e bacharelado, pós-graduado em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica. É fundador da Educação Física Além da Bola, plataforma de materiais pedagógicos para professores de Educação Física escolar.